“Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética [negra] fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”.
Negação da presença negra
Ao avaliar o embranquecimento do carnaval por meio da participação de mulheres brancas, tirando o protagonismo das passistas das comunidades, a Samba Abstrato denuncia o que o professor de jornalismo e diretor da FAAC da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Juarez Tadeu de Paula Xavier, chama de "aniquilamento social e cultural" da população negra. Ele pesquisa as origens do racismo e as consequências atuais da prática, incluindo episódios no carnaval.Professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da FAAC/Unesp. Foto: Natália Viola/Divulgação
"Existe um aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade", afirma. A negação da beleza e o aniquilamento da cultura negra são parte desse processo, explica. "É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa", relembra o professor. Apesar de o carnaval, como conhecemos hoje, ser voltado, em termos estéticos e plásticos, para a televisão, como um produto a ser comercializado, pontua Xavier, a festa tem digitais negras. Segundo o professor de comunicação social, as escolas foram construídas e mantidas por pretos e pardos como forma de sobrevivência coletiva. Ele lembrou que o pós-escravidão se refletiu em “exclusão produtiva” dessa população, que ficou sem acesso à renda e ao trabalho, por exemplo. Para Xavier, reverter esse processo requer uma estratégia ampla de combate ao racismo e à misoginia, da qual faz parte a campanha "Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais", do Ministério da Igualdade Racial (MIR), lançada na última segunda-feira (12), no Rio de Janeiro. "Quando você tem uma campanha com a marca do governo federal, está em evidência uma ação política contra o racismo em espaços onde podem surgir essas manifestações", destaca.Carnaval sem racismo
A campanha do ministério pretende divulgar, a partir de sábado (17), material educativo alertando para práticas como injúria racial e fantasias ofensivas, além de violências simbólicas e discriminação. O material será distribuído nas principais festas de carnaval no país, incluindo os municípios que aderiram ao Plano Juventude Negra Viva. Na visão do secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, o carnaval já superou fantasias estereotipadas, mas há quem insista.A campanha do ministério, explica, é para enfrentar as agressões diretas, as injúrias, mas sem deixar de coibir que temas e a estética negra sirvam de “peça de chacota”.“Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, disse.
Ministério da Igualdade Racial lança campanha ‘Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais’. Foto: Rafael Caetano/MIR
Denuncie
Com a campanha, o ministério também pretende incentivar as vítimas a registrarem as denúncias por meio do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e da Ouvidoria do Ministério da igualdade Racial, pelo e-mail: ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Os dois órgãos podem dar suporte e ajudar a denunciar os casos em órgãos oficiais. Se você for vítima, faça também em um boletim de ocorrência, na delegacia de polícia mais perto, recomenda o professor da Unesp. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, frisou. Relacionadas
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