Rashmi Singh, professora de relações internacionais da PUC Minas, durante entrevista a TV Assembleia MG. Foto: Frame/TV Assembleia MG
Para a professora da PUC Minas, o objetivo da guerra é instalar um governo “fantoche” de Washington no Irã e eliminar o principal obstáculo à hegemonia de Tel Aviv em todo o Oriente Médio. “Também devemos lembrar que Netanyahu enfrenta eleições gerais ainda este ano e tentará usar o Irã para fortalecer sua posição política. Já vimos nos últimos dois anos de atuação israelense em Gaza, contra o Hamas, como Netanyahu é hábil em usar a guerra, e até o genocídio, não apenas para se manter no poder, mas também para escapar da Justiça”, completou a professora Singh.Conter a China
O professor de relações internacionais Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), ponderou à Agência Brasil que “dificilmente” pode se explicar os ataques contra o Irã pela versão da “contenção nuclear”. Para o analista, o ponto fundamental envolve a disputa pelo equilíbrio de poder no Oriente Médio, com a tentativa de Israel e EUA conter a influência regional de Teerã. “[A guerra] pode afetar especialmente a China, grande importadora do petróleo iraniano, que passa ali pelo Estreito de Ormuz. O conflito combina essa contenção estratégica em relação ao Irã, e também a eterna e tradicional rivalidade regional envolvendo Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita, e, mais recentemente, também os Emirados Árabes Unidos”, ponderou o professor Valdez.Projetar Israel
O especialista em Oriente Médio Mohammed Nadir, professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC), descarta a justificativa oficial de “ameaça nuclear” do Irã, ou mesmo a neutralização do programa de mísseis balísticos e a contenção do Eixo da Resistência, apoiado pelo Irã. “O real motivo é acabar com qualquer possibilidade de uma potência pujante no Oriente Médio e manter a hegemonia de Israel. Esta guerra não é uma guerra americana, mas é uma guerra de Benjamin Netanyahu e, por extensão, de Israel, que quer se tornar o hegemônico incontestável no Oriente Médio. E os EUA querem garantir essa primazia a Israel”, disse. Nadir lembra ainda da justificativa da existência de “armas de destruição em massa” usada pelos Estados Unidos para a invasão do Iraque, em 2003, que depois se mostrou falsa.Protesto no Iraque a favor do ex-líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, morto nos bombardeios a Teerã no sábado. REUTERS/Thaier Al-Sudani - Proibido reprodução
Política imperialista
Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Goulart Menezes, os EUA sempre usaram o programa nuclear do Irã como pretexto contra Teerã, em mais de meio século de relações hostis entre os dois países. “O Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), então o Irã pode ser inspecionado a qualquer momento, sem aviso prévio, pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aeia), e o Irã sempre tem contribuído”, ponderou Menezes. Por outro lado, o especialista avalia que a invasão da Ucrânia e outros acontecimentos recentes incentivam o Irã a desenvolver cada vez mais seu programa nuclear. De toda forma, o professor da UnB avalia que os EUA querem redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio. “Trump fala abertamente que nenhum governo hostil aos EUA, que os ameacem de alguma forma, vai permanecer no poder, e ele está aplicando essa política que nós estamos vendo, imperialista, uma política agressiva”, afirmou Roberto Goulart Menezes. O imperialismo é o conceito usado quando “um país central se vale de seu maior poderio econômico, político e militar para subordinar países periféricos de acordo com seus próprios interesses”, explicou o sociólogo Raphael Seabra, professor da Universidade de Brasília (UnB).Dezenas mortos em ataque israelense à escola do Irã, segundo relatos da mídia estatal. Foto: Frame/Reuters - Proibido reprodução
Entenda
Pela segunda vez em oito meses, Israel e EUA lançam uma agressão contra o Irã, em meio às negociações sobre o programa nuclear e balístico do país persa. Ainda no primeiro governo Trump, os EUA abandonaram o acordo firmado em 2015, sob o governo de Barack Obama, para inspeção internacional do programa nuclear iraniano. Israel e EUA acusam Teerã de buscar o desenvolvimento de armas nucleares. Os iranianos, por sua vez, defendem que o programa é para fins pacíficos e que se colocavam à disposição para inspeções internacionais. Por outro lado, Israel, mesmo acusado de ter bombas atômicas, nunca permitiu qualquer inspeção internacional em seu programa nuclear. Ao assumir seu segundo mandato, em 2025, Trump iniciou nova ofensiva contra Teerã, exigindo, além do desmantelamento do programa nuclear, o fim do programa de mísseis balísticos de longo alcance e o fim do apoio a grupos de resistência a Israel, como o Hamas, na Palestina, e o Hezbollah, no Líbano. Um dia antes da agressão contra o Irã, o chanceler de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, mediador nas negociações, informou que eles estariam muito próximos de um acordo, e que o Irã teria concordado em não manter urânio enriquecido, decisão até então inédita. “Isso é, sem dúvida, uma grande conquista. É algo que não estava presente no antigo acordo negociado durante o governo do presidente Obama. Portanto, haverá zero acumulação, zero estocagem e verificação completa”, informou o ministro das Relações Exteriores de Omã, em entrevista à rede de TV CBS. As atuais hostilidades entre Israel, EUA e Irã têm origem em 1979, quando a Revolução Islâmica triunfou no Irã, derrubando o governo aliado de Washington à época. Desde então, o país persa é alvo de sanções econômicas que buscam fragilizar sua economia. Relacionadas
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