Em 18 de março, diante de empresários reunidos na sede da Amcham, em São Paulo, o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, afirmou que Washington aguarda uma resposta brasileira sobre minerais críticos. No Planalto, a declaração causou estranheza: não havia, segundo o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), proposta formal a ser respondida.
Os Estados Unidos tratam o tema como uma negociação em curso. Já o governo brasileiro afirma que o que foi apresentado é vago demais para ser considerado uma proposta. Equipes técnicas de Brasília e de Washington—por meio do USTR, escritório norte-americano de representação comercial— realizam reuniões regulares, mas ainda não há anúncio público sobre o conteúdo.
O interesse norte-americano não é novo.
Em fevereiro, o secretário-adjunto de Estado norte-americano, Caleb Orr defendeu o processamento de terras-raras no Brasil e citou 2 projetos em Goiás financiados pela DFC (U.S. International Development Finance Corporation). No mesmo evento de março, representantes do governo dos EUA indicaram interesse em acesso preferencial às reservas brasileiras e sinalizaram expectativa por regras conjuntas no setor.
O que foi apresentado até agora, porém, veio de forma genérica. No contexto das negociações para retirada do tarifaço —antes de a Suprema Corte norte-americana derrubar sua base legal—, Washington incluiu “minerais críticos” em uma lista de pedidos ao Brasil, sem detalhamento. Na avaliação do Planalto, não houve proposta concreta direcionada ao país.
A avaliação do govenro brasileiro é a de que o interesse é dos Estados Unidos, enquanto o Brasil detém as reservas. Nesse cenário, caberia aos norte-americanos apresentar uma proposta para abrir as negociações.
O governo também rejeita qualquer modelo que transforme o país em exportador de matéria-prima bruta. A diretriz interna prioriza a exportação de produtos processados e preserva a possibilidade de restringir vendas externas em caso de necessidade doméstica.
No Planalto, a ausência de uma oferta estruturada é atribuída a divergências internas nos EUA. Para o governo brasileiro, há duas correntes no Departamento de Estado: uma favorável à cooperação, na qual minerais críticos seriam ativos estratégicos compartilhados; e outra que aposta em pressão por meio de atores subnacionais, como no caso de Goiás.
O fato de o memorando com Goiás ter sido assinado pelo Departamento de Estado, e não pelo Departamento de Energia —interlocutor técnico para temas de mineração—, causou estranheza. O Planalto interpretou a escolha como tentativa de dar um peso político ao acordo.
Lula afirmou que pretende discutir minerais críticos em eventual reunião com Donald Trump (Partido Republicano). Em outras agendas, como a de combate ao crime organizado, o fluxo foi diferente: o Brasil apresentou proposta, recebeu contraproposta em janeiro de 2026 e as negociações seguem em andamento.
No caso dos minerais críticos, a lógica se inverte. O governo brasileiro sustenta que aguarda uma proposta estruturada dos EUA para definir sua posição.
Quando houver uma proposta formal, o governo afirma estar preparado para responder. Parte dessa estratégia envolve a criação de um conselho de minerais críticos, que o Planalto articula vincular à Casa Civil.





