Um movimento inédito no comércio exterior mineiro coloca em alerta produtores e especialistas do agronegócio. Em fevereiro de 2026, Minas Gerais registrou a importação de 122 toneladas de filé de tilápia vindas do Vietnã. É o primeiro registro de entrada do peixe asiático no estado desde o início da série histórica, em 1997.
O dado é considerado "contraditório", já que Minas Gerais vive o auge de sua piscicultura. O estado é o terceiro maior produtor do Brasil e abriga, em Morada Nova de Minas, o município líder nacional na produção da espécie.
A invasão do produto asiático não ocorre por falta de peixe nas águas mineiras, mas por uma questão de custo. "O filé importado chega com preços mais competitivos devido à escala e custos menores no Vietnã. Isso compromete a competitividade da nossa cadeia", explicou Nathália Rabelo, analista do Sistema Faemg Senar.
Entretanto, o risco vai além do bolso. O setor teme a introdução do Vírus da Tilápia do Lago (TiLV). O Brasil é atualmente livre da doença, mas o vírus já está presente no Vietnã. "A eventual entrada do patógeno poderia causar impactos sanitários e econômicos significativos, comprometendo a produção e a confiança do mercado", afirmou a Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg) em nota à Itatiaia.
O setor produtivo aponta uma desigualdade tributária como o principal vilão. Enquanto o produtor mineiro arca com o ICMS e altos custos de produção, o filé vietnamita entra no mercado local com isenções que o tornam mais barato nas gôndolas. "Na prática, Minas Gerais acaba subsidiando o produtor estrangeiro, quando deveria proteger quem gera emprego aqui", criticou o produtor Carlos Junior de Faria Ribeiro.
Diferente de Minas, outros grandes produtores já ergueram barreiras:
Em nota, o Sistema Faemg Senar defendeu que o governo mineiro siga o exemplo, sugerindo a adoção de alíquotas diferenciadas de ICMS e protocolos mais rígidos de rastreabilidade.
O avanço das importações acontece justamente no momento de maior expansão da história da piscicultura mineira.
Atualmente, Minas responde por 11,7% da produção nacional. Além da concorrência externa, o setor enfrenta a insegurança jurídica com a possibilidade de a tilápia ser classificada como "espécie exótica invasora" pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio). Vale lembrar que após a repercussão do setor, o governo suspendeu temporariamente a proposta. Segundo Guilherme Oliveira, analista de Sustentabilidade da Faemg, essa classificação poderia travar investimentos em frigoríficos e laboratórios de genética, prejudicando especialmente o pequeno produtor.
Com a balança comercial nacional de tilápia registrando, pela primeira vez, mais importações do que exportações, o "mar de Minas" aguarda agora medidas governamentais para garantir que o crescimento registrado nos últimos anos não seja interrompido por peixes vindos do outro lado do mundo.





