China muda ração dos porcos e ameaça bilhões do mercado global de soja
Com ração fermentada e tecnologia, China busca reduzir dependência da soja importada e pressiona o mercado global de soja.
Com ração fermentada e tecnologia, China busca reduzir dependência da soja importada e pressiona o mercado global de soja. A suinocultura chinesa está passando por uma transformação silenciosa, mas estratégica. Em meio à volatilidade dos preços da soja e às tensões comerciais com os Estados Unidos, produtores e o governo de Pequim estão promovendo uma mudança profunda na alimentação dos animais, substituindo parte do farelo de soja por alternativas fermentadas, mais baratas e produzidas localmente. Essa mudança não é apenas uma resposta de curto prazo aos custos — trata-se de uma política estruturada de segurança alimentar e autossuficiência, com impactos diretos no mercado global de grãos e na dinâmica da produção de proteína animal. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp
Em fazendas como a de Gao Qinshan, na região de Taizhou, o uso de tanques com misturas fermentadas tem se mostrado uma solução prática para reduzir custos. Esses sistemas utilizam resíduos agrícolas e subprodutos locais, como farelos, ramas e resíduos de fermentação, transformados em ração altamente digestível. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});O diferencial está no processo: a fermentação quebra as proteínas previamente, facilitando a absorção pelos animais e reduzindo a necessidade de proteínas nobres, como as presentes na soja. Na prática, isso pode reduzir pela metade o uso de soja na alimentação dos suínos, um avanço significativo considerando que a China importa cerca de 80% da soja que consome. A motivação imediata dos produtores é econômica. A ração representa aproximadamente 70% do custo de produção na suinocultura, e o aumento dos preços da soja — impulsionado por conflitos geopolíticos e tensões comerciais — tem comprimido as margens. Além disso, o setor enfrenta um cenário desafiador: preços do suíno em níveis mínimos de até 16 anos; excesso de oferta no mercado interno; demanda enfraquecida do consumidor. Esse conjunto de fatores torna inevitável a busca por alternativas mais baratas e eficientes.
Por trás da mudança no campo, existe uma diretriz clara do governo chinês. Pequim intensificou, especialmente a partir de 2025, políticas para reduzir o uso de farelo de soja nas rações e diversificar as fontes de proteína animal. O objetivo é direto: diminuir a dependência de importações, especialmente dos Estados Unidos, em um contexto de disputas comerciais recorrentes. Hoje, a China é o maior importador mundial de soja, com compras superiores a US$ 50 bilhões por ano. Para enfrentar essa dependência, o país estabeleceu metas ambiciosas:
redução gradual do farelo de soja nas rações; estímulo ao uso de proteínas alternativas (fermentadas, sintéticas e vegetais); aumento da eficiência alimentar nos sistemas produtivos. Os resultados já começam a aparecer. A ração fermentada: representava apenas 3% da ração industrial em 2022; já alcança cerca de 8% atualmente; pode atingir 15% até 2030. Se essas projeções se confirmarem, a China poderá reduzir suas importações de soja em até 6,3%, o que teria impacto direto no comércio global — incluindo países exportadores como Brasil e EUA. Além disso, grandes empresas já estão liderando essa transição: a Muyuan Foods reduziu o uso de soja na ração com aminoácidos sintéticos; a New Hope desenvolve dietas sem soja para aves; gigantes do leite como Yili e Mengniu cortaram até 20% do uso do insumo. A mudança também atrai investimentos internacionais e impulsiona um novo mercado. O setor de ração fermentada na China já movimenta cerca de US$ 6 bilhões, aproximando-se do tamanho do mercado europeu.
Empresas globais, como a Louis Dreyfus, já planejam instalar unidades de produção no país, sinalizando que a transformação é estrutural e de longo prazo. Apesar dos avanços, a transição ainda enfrenta obstáculos importantes. A falta de padronização nos processos de fermentação pode gerar:
perdas por deterioração da ração; crescimento mais lento dos animais; maior suscetibilidade a doenças. Outro ponto sensível é a qualidade da carne. Especialistas alertam que a redução do uso de soja — reconhecida por seu perfil nutricional — pode afetar sabor e desempenho produtivo se não for bem balanceada. A estratégia chinesa vai muito além das granjas. Ela pode redesenhar o fluxo global de commodities agrícolas. Para países exportadores, como o Brasil, os efeitos podem ser duplos: no curto prazo, a demanda segue forte devido ao tamanho do rebanho chinês; no médio e longo prazo, a tendência é de redução gradual da dependência externa. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para novas oportunidades: exportação de tecnologias nutricionais; desenvolvimento de ingredientes alternativos; maior valorização da eficiência produtiva.
Por: Redação





