A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos não foi tratada em Brasília como um episódio externo isolado. O movimento funcionou como catalisador de um debate que vinha sendo adiado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o financiamento de longo prazo da Defesa.
A avaliação interna é que um ambiente regional mais instável, somado à percepção de vulnerabilidades estruturais, reduziu o espaço político para postergar decisões sobre modernização e capacidade de dissuasão.
O desenho discutido estima variação ao longo do tempo: 2% da RCL (Receita Corrente Líquida) nos 2 primeiros anos, entre 4% e 5% na fase de execução dos principais contratos e retorno a 2% na etapa final. Distribuídos até 2040, os R$ 800 bilhões representariam cerca de R$ 50 bilhões por ano.
Segundo apurou o Poder360, a proposta em análise é atrelar os aportes à RCL e não ao PIB. A ideia é garantir previsibilidade sem conflitar com os pisos constitucionais de Saúde e Educação.
O assunto avançou em 15 de janeiro, quando Lula se reuniu com o ministro da Defesa, José Múcio, e os comandantes das 3 Forças. Participaram o general Tomás Paiva (Exército), o almirante Marcos Sampaio Olsen (Marinha) e o brigadeiro Marcelo Damasceno (Aeronáutica).
O diagnóstico apresentado ao presidente foi direto: o Brasil não dispõe de meios para impedir a ação de uma potência nuclear em seu território. Sua estratégia de dissuasão é elevar o custo de uma eventual agressão. Para isso, porém, são necessários investimentos consistentes e previsíveis.
A pedido de Lula, os comandantes levaram uma estimativa de quanto seria necessário investir nos próximos 15 anos para tornar a defesa compatível com a dimensão territorial e as riquezas naturais do país. O valor apresentado, com base em estudos internos, foi de R$ 800 bilhões.
O cálculo considera exclusivamente investimentos em capacidades —modernização de equipamentos, projetos estratégicos e estrutura operacional— e não aumento de efetivo ou de salários.
A cifra é significativamente superior ao previsto no PLP 204/2025, que estabeleceu R$ 30 bilhões em 6 anos fora do arcabouço fiscal.
A previsibilidade buscaria enfrentar gargalos históricos, como baixa interoperabilidade entre as Forças e atrasos em contratos decorrentes de contingenciamentos. Projetos estruturantes, como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), avançam em ritmo inferior ao planejado.
A recente mobilização da Operação Atlas evidenciou os desafios logísticos para deslocar tropas e equipamentos à Amazônia.
O debate sobre a forma de vinculação ganhou visibilidade após artigo do assessor especial Celso Amorim defendendo investimento de 2% do PIB em Defesa. Segundo apurou o Poder360, a proposta não tem adesão majoritária no governo, por receio de rigidez orçamentária.
A alternativa da RCL, apresentada na reunião de 15 de janeiro, é vista como mais viável politicamente.
Hoje, o Brasil investe pouco mais de 1% do PIB em Defesa, abaixo da média global, de cerca de 2,4%, segundo o Sipri (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo). Países sul-americanos como Colômbia, Uruguai e Equador destinam percentuais superiores.
Há também problemas de obsolescência. Sem reforço orçamentário, a Marinha, por exemplo, pode perder até 40% de seus navios até 2028.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de janeiro mostrou que 58% dos brasileiros temem que os EUA façam algo semelhante ao Brasil. O dado passou a circular no governo como indicativo de que a insegurança internacional tem reflexos na opinião pública.
Nos bastidores, auxiliares afirmam que Lula é favorável à ampliação dos investimentos, mas o Planalto ainda evita assumir compromisso público. A expectativa é consolidar uma proposta de longo prazo antes de levá-la formalmente ao Congresso.





