• Domingo, 12 de abril de 2026

Escorpiões causaram mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil

Número de mortes dobrou em relação ao ano anterior; falta de saneamento básico e demora no atendimento às vítimas aumenta chances de picada e risco de morte em acidentes com animais peçonhentos, como os escorpiões

O Brasil vive um cenário de alerta crescente em relação aos acidentes com animais peçonhentos, com destaque para os escorpiões, que vêm ampliando sua presença principalmente em áreas urbanas. País registrou 225.695 casos de picadas por escorpiões em 2025. Segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde*, o aracnídeo foi responsável por mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos (serpentes, aranhas, lagartas, escorpiões e abelhas) registrados no período.

Embora a maioria das ocorrências sejam leves (89%), as crianças são a população mais vulnerável: dos 265 óbitos registrados em decorrência do envenenamento – o dobro do ano anterior –, mais de 20% envolveram menores de 10 anos. 

Os números também revelam que as pessoas que se autodeclaram pardas foram as vítimas em 55% dos casos e em 62% das mortes, refletindo as desigualdades que atingem esse público. Segundo dados do Painel Cor ou Raça no Brasil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,8% da população parda e 16,1% da população preta vivem em favelas e comunidades urbanas.

Esse fator é relevante porque a ausência de infraestrutura é um dos pontos determinantes para a proliferação de escorpiões no meio urbano, zona que concentra mais de 66% dos acidentes. O aracnídeo costuma ser encontrado em redes de águas pluviais e esgotos, ambientes propícios à multiplicação de baratas – seu principal alimento. Além disso, o acúmulo de lixo e entulhos complementa o cenário de risco.

No Brasil, o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) é o responsável pela maioria dos casos graves de envenenamento. Isso acontece devido, principalmente, à sua fácil capacidade de adaptação a ambientes antropizados (ou seja, que foram significativamente alterados pela ação humana).

Outro detalhe é que as fêmeas da espécie conseguem se reproduzir sozinhas, sem necessidade de acasalamento com um macho, por conta de um fenômeno conhecido como partenogênese – o que ajuda a explicar a rápida disseminação do animal.

Perfil das vítimas e distribuição dos acidentes

Em 2025, 51% das notificações envolveram pessoas do sexo feminino e 49% do sexo masculino. Entre as faixas etárias, destacam-se os adultos entre 20 e 29 anos, que somaram quase 34 mil registros ao longo do ano passado.

A mão e os dedos costumam ser as partes do corpo mais atingidas (41,26%), seguidos pelas pernas, pés e dedos dos pés (36,9%). Geralmente, os acidentes ocorrem durante a execução de atividades domésticas ou o manuseio de objetos em quintais e depósitos, o que reforça a importância do uso de equipamentos de proteção individual, como luvas grossas e calçados fechados.

Em relação à localidade, há uma forte concentração de casos no Sudeste e no Nordeste, que juntos são responsáveis por mais de 83% das notificações. Considerando os números absolutos, São Paulo e Minas Gerais lideram o ranking nacional, com 50.178 e 42.635 notificações, respectivamente. 

No entanto, o maior impacto proporcional é em Alagoas, onde o coeficiente de incidência ultrapassa os 440 acidentes por 100 mil habitantes — parte desse número pode ser atribuída à ampla presença do escorpião-do-nordeste (Tityus stigmurus) na área.

Como agir em caso de picada por escorpião 

O primeiro passo é procurar atendimento médico imediatamente após o acidente, mesmo que os sintomas iniciais pareçam leves, uma vez que os dados apontam que o tempo entre a picada e o atendimento médico é fator determinante para o desfecho clínico. A taxa de letalidade salta de 0,10 entre os pacientes atendidos na primeira hora, para 0,13 entre os que demoraram de uma a três horas para receber o socorro. 

Também não se deve aplicar nenhum tipo de produto, nem realizar torniquete ou compressa de gelo no local, uma vez que o frio pode potencializar a sensação de dor. A recomendação é lavar o local com água e sabão e, se possível, aquecer a região com compressas mornas, que ajudam a aliviar o desconforto.

Apesar do grande número de picadas que ocorreram em 2025 no Brasil, pouco menos de cerca de 5% dos acidentados precisaram receber o soro antiescorpiônico ou o soro antiaracnídico – ambos podem ser utilizados para o tratamento de quadros moderados ou graves de envenenamento causado por escorpiões do gênero Tityus. Produzidos pelo Instituto Butantan, os antivenenos são disponibilizados gratuitamente à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

* Dados coletados em 27/3/2026. Esta matéria foi validada pela bióloga e assistente técnica de apoio à pesquisa do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Candido.

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Por: Redação

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